quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Inesquecível Vislumbre



Este é o lugar. Fiquei parado relembrando,
Deixe-me rever a cena
E convocar do meu passado sombrio
O que aconteceu sem nutrir pena.

O passado e o presente se uniram
Abaixo desse tempo fluindo no turbilhão,
Como pegadas escondidas pela praia
Porém vistas nos lados sem apreensão.

Aqui ruma a estrada para a cidade,
Há uma faixa bem esverdeada,
Através da qual eu ia me encontrar contigo,
E ficavas maravilhada!

Na sombra deste pinheiro
Alguns frutos caiam na grama,
Entre nossos abraços e o insinuar dos ramos,
Que sombreavam a nossa cama.

O teu vestido era como os girassóis,
E teu coração brilhava de tão puro,
Acredito que um dos mensageiros de Deus
Andou comigo nesse dia e me senti seguro.

Eu pude ver o ramo das árvores
Curvarem-se ao seu toque dando-lhe fé,
As folhas do trevo na grama
Se levantavam e beijavam-lhe o pé.

O sono, o sono dos amantes, requer cuidado,
Da terra e sandice nasceu!”
Solenemente entre carícias ouvimos
O pio dos pássaros e algo em mim rejuvenesceu.

Através das persianas o sol dourado
Se derramava no feixe de poeira,
Como a escada celestial vista em sonho
Por Jacó simbolicamente dessa maneira.

E de tempos em tempos, o vento,
Se fazia presente pela casa,
Que construíamos vibrando com ardor
Na paixão que entrava pela entrecasa.

Ao longe se ouvia o sermão dos costumes,
No entanto, à mim não surtia efeito,
Pois falava em precaução e recato,
Ainda sim pensei em ti com respeito.

Mas agora, que pena! O lugar parece diferente,
E você, não estás mais aqui,
Parte daquele resplandecer que eu amava
Não encontrarei mais de quando a vi.

Apesar dos sentimentos, profundamente enraizados
Em meu coração como ciprestes
Negros e altos, subjulgando a luz do meio-dia
Suspirei incessantemente com soluços tristes.

Esta memória iluminou sobre o passado,
Como quando o sol, escondido,
Por trás das nuvens logo acima de nós,
Brilhava como num sonho revivido.

Felipe Valle



domingo, 5 de fevereiro de 2012

Sonho d'Amor

 
  Um jovem amor dorme
  No mês de maio do ano,
  Entre os lírios,
  Banhados à luz delicada:
  Cordeiros brancos vem do pastoreio,
  Pombas brancas constroem lá,
  E ao redor dela
  As flores-de-maio são brancas.

  Musgo macio do travesseiro 
  Por um oh! Uma suave bochecha;
  Leves folhas lançam as sombras,
  Sobre os olhos pesados:
  Há vento e as águas
  Crescem embaladas e pouco falam,
  O crepúsculo tarda
  O mais longe no céu.

  Jovem amor está sonhando;
  Mas quem deve contar o sonho?
  A luz do sol perfeito,
  Na floresta de tom embolorado,
  Ou luar perfeito
  Acima do córrego apressado,
  Ou o silêncio perfeito,
  Ou a música de lábios acarinhados.

  Queima odores à sua volta
  Para encher o ar sonolento;
  Danças tecem em silêncio
  Em torno dela de lá e para cá;
  Por um oh! Em vigília
  Os lugares não são formosos,
  E a música e o silêncio
  Não são como esses abaixo.

  Jovem amor está sonhando
  Até os dias do verão se forem,-
  Sonhando e cochilando
  Distante do sono perfeito:
  Ela vê a beleza
  Que o Sol não tem olhado,
  E gostos da fonte
  Indizivelmente profundos.

  Ela é a música perfeita
  Que faz na quietude do seu descanso,
  E através da pausa
  O perfeito acalma o silêncio,
  Oh! Pobres as vozes
  Da terra de leste a oeste,
  E a quietude pobre da terra
  Entre suas imponentes palmeiras.

  Jovem amor está adormecida
  Distante da sonífera morte;
  Sombras frescas aprofundam
  Em todo o rosto adormecido,
  Então cai o verão
  Com a respiração quente e deliciosa,
  E o que o outono tem
  Para nos dar em seu lugar?

  Aproxime as cortinas
  Da sempre-viva ramificada;
  A mudança não poderá toca-la
  Com os dedos enfraquecidos e secos:
  Primeiro as violetas
  Talvez com o botão-de-flor invisível,
  E uma pomba, pode ser,
  Retornaram aninhadas aqui.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Faces da Rua


Eles mentem, os homens que nos dizem em um alto tom
[decisivo,
que queremos aqui um estranho, e uma miséria
[desconhecida,
para onde o mais próximo subúrbio e a cidade propriamente
dita atender,
O peitoril da minha janela está no mesmo nível
das
faces da rua,-
à deriva do passado, à deriva do passado,
P'ra batida dos pés cansados,
Enquanto entristeço-me pelos donos
dessas
faces da rua.

E por que Eu fico triste, numa terra jovem e justa,
p'ra ver sobre aquelas caras estampadas o Desejo
[e a Preocupação,
Eu olho em vão tentando encontrar vestígios da doçura
[e uma doce palidez;
mas as faces estão afundadas à deriva pelas ruas,-
em diante à deriva, à deriva em diante,
ao raspar de pés inquietos;
Eu entristeço-me pelos donos
das
faces da rua.

Em horas antes do amanhecer escurece a luz das estrelas
[no céu,
os rostos cansados e lívidos começam a passar aos poucos,
aumentando a medida nos momentos de pressa;
com seus pés pela manhã,
até como o fluxo do rio pálido são
as
faces da rua,
fluindo, fluindo;
com a batida de pés apressados,
ah! Eu entristeço-me pelos donos
dessas
faces da rua.

O ser humano diminui o seu fluxo após às oito horas
[da noite,
suas ondas indo fluir mais rapidamente no medo
de ser tarde;
mas lentamente arrasta-se os momentos,
enquanto sob a poeira e o calor,
a cidade mói os proprietários
das
faces da rua,
corpo de moagem, a alma da moagem,
rendendo escassamente o suficiente para comer,-
Oh! Eu fiquei triste pelos donos
das
faces da rua.


E depois os rostos apenas até o sol estão afundando,-
são de trabalhadores de longe e os desocupados
[da cidade,
salvo aqui e ali um rosto que aparece estranho
na rua,
fala de desempregados da cidade em cima
de suas batidas cansadas,
deriva à volta, volta à deriva,
Para o piso dos pés inescutáveis,-
Ah! Meu coração dói pelos donos
das
faces da rua.

E quando as horas já de pé arrastam-se
lentamente,
e a luz amarela e doentia do poste
zomba da origem do dia que se foi,
então flui pela minha janela como uma maré
em seu retiro,
mais uma vez Eu vejo o fluxo de rostos
pálidos na rua-
a vazante acontece, acontece a vazante,
ao arrastar os pés cansados,
enquanto o meu coração está doendo
estupidamente pelos rostos
das
pessoas da rua.

E agora tudo está borrado e manchado,
como o constringir da última página
[de um dia triste,
por enquanto a curta "grande hora"
está na direção das pequenas horas
da tendência,
com sorrisos que zombam do utente,
e com palavras que imploram metade,
flores são oferecidas por costume,
na esquina da rua,-
afunilada;- afunilando-a,
no naufrágio atingido pela batida d'uma
tempestade remota,-
um comércio terrível, e ingrato é o dela,
mas que mulher corajosa é essa
da
rua.

Mas, ah! As coisas que amedrontam
nossa justa cidade vem,
no seu coração 'stá crescendo
em espessura nas cavernas imundas
[e nas favelas,
onde formas humanas devem apodrecer
em chiqueiros de porcos imprestáveis,
e os rostos fantasmagóricos devem ser
vistos em qualquer paradeiro d'uma rua,-
coisa podre regurgitada, coisa regurgitada...
para falta de ar e carne,-
em antros de vício e horror que 'stão
escondidos
nas ruas.

Eu me pergunto se a apatia dos ricos
suportam
afora de todas as suas janelas no mesmo
nível dos rostos dos pobres?
Ah! Escravos de Mammon, seus joelhos
devem tremer,
seus corações tremer de horror,
quando Deus exige uma razão para as dores
da rua,
as coisas erradas e as coisas ruins
que encontramos
pela viela suja e gosmenta,
e na rua,
um cruel sem coração.

Eu deixei o canto terrível
aonde os passos ainda não aconteceram,
e procurei outra janela
com uma vista pro desfiladeiro e para morte,
mas quando a noite chegou triste
junto com a chuva e o granizo,
isso me assombrou tanto- as sombras
destes rostos
da rua,
esvoaçando num voo,
esvoaçando silenciosos em suas pisadas,
e com as bochechas um pouco mais alvas
do que as reais qu'encontro na rua.

U'a vez Eu chorei "Oh! Deus Todo-Poderoso,
Teu Poder ainda se deve suportar,
agora me mostre em uma visão pros males
da Terra
uma cura!"
E eis, com todas lojas fechadas
Eu vi uma rua da cidade,
e na distância do presságio,
ouvi um vagabundo correndo,
aproximando-se, chegando perto,
para se bater um tambor irritante
se está distante,
e logo vi que o exército é que estava
marchando pela rua.

E como um rio inundado
que num jato torrencial inunda
tudo o que vê pela frente,
a inundação humana veio derramando
com as suas bandeiras vermelhas
sobre todos,
e todos os olhos brilhantes
se acenderam todas as chamas
pelo calor da revolução,
e piscando espadas faziam se refletir
as faces rígidas das ruas,
derramando, derramando nelas,
o som dos tambores que as ameaçavam,
e os hinos da guerra e os aplausos
do povo nas ruas.

E assim deve ser, enquanto o mundo
vai girando e seguindo seu curso,
a caneta da advertência continua
a escrever em vão,
e a voz da advertência a ficar rouca
toda vez que eleva um pouco mais
a sua fala,
mas não até que uma cidade
se ajoelhe aos pés
da Revolução Vermelha,
e seu povo ficar triste ao perder
tempo com os terrores na rua,-
a luta terrível e eterna,
para roupa mal vestida e a carne
jogada na via confinada
na morte da vida-
numa rua cruel da cidade.

Auto-confiança


Confio em você,
Pois aloja-se em meu peito,
O amor & a esperança.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Além da Vida


Tire o capuz de seu rosto, e ao se descobrir
Inicialmente o pior do cadáver está por vir.

Como ele mente nos direitos dum homem!
A morte tudo pode naqueles que a consomem,
E absorvido na nova vida que a conduz,
Ele não se importa, sem cautela se reduz,
Nem seu erro nem minha vingança, estarrecidas
Ambas no sentido de terem sido reconhecidas,
E se perdem na solene e estranha
Surpresa da mudança.
Há muito proveito no apagar da morte,
Sua ofensa, minha desgraça sorte?
Eu seria como garoto que éramos naqueles anos,
Pelo campo, nas dobras entre sadios enganos,
Sua afronta, a paciência divina, o desprezo humano
Foram tão facilmente carregados p'ra outro plano.

Eu estou aqui e agora, ele está em seu lugar devido:
Cubra finalmente o seu rosto translúcido!

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Amores do Verão




À minha linda abelhinha”



Nós fomos para o verão, pro verão que chega,
As sebes cheias de flores como numa bela entrega,
E o pardal sobre o carvalho edificando seu ninho,
E o amor brilhando no cristal com todo meu carinho,
Ela se senta com cabelos entrelaçados debaixo da acácia,
E Eu vou junto à ela com afetuosidade sentir sua carícia,
Eu vou olhar pro rosto dela, descansando em sua beleza,
E colocarei o meu cansaço em seu peito cheio de pureza,
Sendo Eu seu amado amante contemplando a luz do verão,
Enquanto acaricia-me com suas unhas quentes em gratidão.

O tempo ensolarado chega sobre a aberta flor-de-maio;
A abelha toda alegre pisoteando as rosas em seu ofício,
E o tentilhão meditando no seu ninho acinzentado,
Por entre os arbustos que Eu contigo, ficava deslumbrado,
Eu apoiado em seu peito e sussurrando em seu ouvido,
Que não quero dormir sem uma piscada ou um gemido;
Que tenho louca vontade, de retê-la em meu pensamento
Duma forma que ele renasça novamente no nascimento;
Diariamente como a fome natural que nasce no dia-a-dia
E só se satisfaz como a rosa alimentada no calor do dia.


quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Canto à Minha Ave Negra




Num mar de sangue, se vê os destroços
Boiando inertes, diante d'ave vindoura,
Percorrendo os umbrais pelos escombros.
Num voo tétrico, numa rapidez futura.

Jamais se vira presa de aflição, estende
Pelos céus um ganir — cortaram teu canto!
Feito cão farejando o dono, e no alpendre
Pousa o seu esqueleto cansado e imoto.

De seu sobrevoo imperial, só há perdição!
Tão gentil ao abrir as asas, ei-la terrifica...
Chega-lhe o acre cheiro da deterioração,
Encostada ao cadáver que nada significa.

A nossa alma é semelhante a ave negra,
Corrompidas pela pua, a espetar audazes,
Os céus de exílio, dormentes pela legra,
Cirurgiando as asas rotas, agora ineficazes.